Lavagem de dinheiro da Petrobras usou comerciantes da 25 de Março diz MPF

Os suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras teriam usado até comerciantes de um tradicional ponto de comércio popular, a rua 25 de Março, no centro de São Paulo, para lavar dinheiro desviado da estatal, conforme denúncia do MPF-PR (Ministério Público Federal no Paraná).

Ontem (11), a Procuradoria denunciou 36 suspeitos por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro e pediu o ressarcimento de R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Nesta sexta-feira (12), a Justiça Federal aceitou a denúncia contra nove, que se tornaram réus no processo.

Segundo o procurador da República Deltan Dallagnol, que conduz as investigações, Leonardo Meirelles, um dos doleiros denunciados ontem, tinha como clientes vários comerciantes da rua 25 de Março --os nomes não foram divulgados--, que queriam enviar dinheiro ao exterior ilegalmente.

Meirelles, que é sócio do também doleiro Alberto Youssef na empresa Labogen, usava o dinheiro desviado nos contratos da Petrobras para fazer as remessas dos comerciantes por meio de importações fictícias: o dinheiro saía do país, mas nenhum bem entrava no Brasil. A manobra era feita por meio de empresas de fachada em Hong Kong, na China.

O dinheiro enviado ao exterior passava por offshores que Meirelles tinha em parceria com o Youssef, como a RFY e a DGX, antes de chegar ao destino final. Feita a operação, os doleiros recolhiam dinheiro vivo dos comerciantes da 25 de Março. Em seguida, o dinheiro lavado era distribuído aos envolvidos no esquema.

De acordo com a denúncia do MPF, esta era apenas umas formas empregadas pelos suspeitos para lavar o dinheiro desviado. Os suspeitos também firmavamcontratos com empresas de fachada, que nunca realizaram os serviços pelas quais foram pagas; contratos fictícios de consultoria; e a compra de imóveis, como edifícios e hotéis.

A Procuradoria afirma que os envolvidos utilizaram métodos mais sofisticados e complexos para ocultar os desvios, em comparação com os meios tradicionais de lavagem. "A lavagem não era feita por corruptores e corrompidos. Envolvia profissionalização, internacionalidade e complexidade", disse Dallagnol, que qualificou o processo de "modernidade da lavagem de dinheiro".

"Clube" de empreiteiras
Dos 36 denunciados ontem, 23 pertencem às empreiteiras OAS, Camargo Corrêa, UTC Engenharia, Engevix, Mendes Júnior e Galvão Engenharia. Além deles, foram denunciados Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, e Alberto Youssef.

Segundo o procurador Deltan Dallagnol, os desvios feitos pelos suspeitos em contratos fraudulentos só da diretoria de abastecimento, objeto da denúncia de ontem, somam, até agora, cerca de R$ 300 milhões. O MPF, no entanto, pede que sejam ressarcidos R$ 1 bilhão, que é a estimativa mínima do valor total que teria sido desviado.

A denúncia sustenta que empreiteiras organizaram-se em cartel, em um "clube", que controlava as obras da diretoria de abastecimentos. Segundo o MPF, as empresas sabiam quem iria vencer cada licitação.

Entre as práticas ilegais do cartel estavam a realização de contratos desnecessários ou injustificados; a inclusão de aditivos contratuais com preços excessivos; aceleração do processo de licitação e a revelação dos processos sigilosos. A propina paga aos agentes corrompidos dentro da Petrobras variava entre 1% e 5% de cada contrato fraudulento.

Ainda de acordo com Dallagnol, foram praticados 154 atos de corrupção e 105 atos de lavagem de dinheiro pelos 36 denunciados. O procurador afirmou que essa é a primeira denúncia da Lava Jato, relacionada aos crimes que teriam sido praticados na diretoria de abastecimento. Outras denúncias, relativas a desvios em outras diretorias, devem ocorrer futuramente.

Outro lado
A exemplo de Youssef e Paulo Roberto Costa, Meirelles aceitou fazer delação premiada para contribuir com as investigações. Em depoimento ao juiz federal Sergio Moro, ele afirmou ser subordinado de Youssef e a outros envolvidos no esquema.

Executivos das empresas Engevix negaram, em depoimento na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba no mês passado, a participação no suposto cartel.

Apesar de negarem a existência do cartel, os executivos da Engevix disseram ter tido contato com Youssef, que se apresentou como "senhor Primo".Já o os executivos da OAS permaneceram calados durante o depoimento.

O vice-presidente da Mendes Junior, Sérgio Cunha Mendes, disse em depoimento à PF no mês passado que foi obrigado a pagar propina de R$ 8 milhões a Youssef.

Segundo ele, Youssef exigiu o pagamento da quantia para que a Mendes Júnior recebesse os valores a que tinha direito em contratos de serviços licitamente prestados e para continuar participando das licitações da Petrobras. De acordo com a defesa, foram feitos quatro pagamentos seguidos, de julho a setembro de 2011.

No depoimento que prestou à Polícia Federal na Operação Lava Jato, Ricardo Pessoa, presidente da UTC negou irregularidades e o pagamento de propinas a agentes públicos.

Já a Camargo Corrêa afirma que todos os seus pagamentos correspondem a serviços prestados e que nunca fez "pagamento ilegal".

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