Brasil pega Sérvia em duelo de "bipolares" para alcançar semi após 28 anos
No dicionário Aurélio, a palavra "bipolar" tem como uma de suas definições "pessoas que têm perturbação de humor caracterizada por alternância entre estados depressivos e estados de excitação eufórica". Se trocarmos "pessoas" por "seleção brasileira de basquete", a definição pouco muda, se analisados os resultados deste século. Na próxima quarta-feira, a partir de 13h, porém, a situação pode ser combatida de vez. O duelo contra a Sérvia, pelas quartas de final do Mundial, coloca frente a frente duas equipes que variam de estado dentro até da mesma partida com certa frequência. Uma delas chegará às semifinais e superará o transtorno.
O Brasil não alcança uma semifinal de um Mundial desde 1986 - curiosamente, em edição também disputada na Espanha. Um tabu de 28 anos - ou seja, pressão. Será que a possibilidade de encerrar essa seca influenciará no psicológico da equipe? Ou a vitória contra a Argentina acabou com esse problema?
Já a Sérvia (carregando os resultados da antiga Iugoslávia) desbanca os EUA como maior campeã mundial: tem 5 títulos, contra 4 dos americanos. A última taça foi levantada em 2002, e a última briga por medalha em 2012 (perdeu o bronze para a Lituânia), mas desde 2004 não disputa as Olimpíadas - e, naquela ocasião, foi lanterna de seu grupo.
Uma das duas seleções, portanto, encerrará uma fase ruim, alcançando as semifinais. Abaixo, relembre a "bipolaridade" recente de cada uma e saiba o que o jogo pode ter de variações.
Brasil
Há quem não lembre, mas o Brasil é bicampeão do mundo no basquete (1959 e 1963). Tem também duas pratas (1954 e 1970) e dois bronzes (1967 e 1978). Após isso, porém, só uma semifinal: em 1986, quando perdeu para os EUA e, na disputa de 3° lugar, caiu para a Iugoslávia. O que, então, fez o Brasil parar de chegar longe?
Não cabe, aqui, discussões técnicas ou de gerações. E sim a "bipolaridade" da equipe. Em praticamente todo caso de queda precoce - seja em Mundial, seja nas ausências olímpicas -, o Brasil ficou próximo de ir longe, mas travou na "hora h". Na última vez que disputou as quartas de um Mundial, por exemplo, foi assim: em 2002, o Brasil encarou uma Argentina que, um dia antes, havia derrotado os então "imbatíveis" Estados Unidos. Assumidamente, os argentinos passaram a noite festejando e chegaram ao duelo com o Brasil longe das melhores condições. O jogo foi para o intervalo empatado, mas no 3° quarto um apagão acabou com as chances brasileiras: 22 a 13 na parcial, 78 a 67 no final.
Em 2003, no pré-olímpico, precisava derrotar Porto Rico no penúltimo jogo da segunda fase para avançar. Perdeu por dois pontos: 72 a 70. Em 2007, mesma competição, nova queda: a um jogo de conseguir a vaga nas Olimpíadas, perdeu da Argentina por 91 a 80. No Mundial de 2010, nova derrota para a Argentina, agora nas oitavas (e isso após boa primeira fase, na qual perdeu por apenas 2 pontos para os EUA, com direito a bola na mão para a virada no último lance) - roteiro de bipolaridade presente em seu ápice: vantagem no 1° tempo, virada no último quarto e derrota por 4 pontos, 93 a 89.
Para finalizar, Olimpíadas de 2012: finalmente de volta, o time avança ganhando até da Espanha, que seria a medalhista de prata. Mas, nas oitavas, apagão no 2° quarto contra a Argentina - 23 a 14 - e nova derrota para os rivais.
Neste Mundial, o time venceu dois europeus na primeira fase pela primeira vez em 24 anos; se recuperou de um apagão contra a Sérvia na fase de grupos; derrotou a Argentina, finalmente. É a hora de, no jogo mais importante, a bipolaridade ir para o lado positivo.
Sérvia
Não à toa os sérvios têm como principal jogador Milos Teodosic, alguém que tem habilidade incomum com a bola, mas se irrita com a mesma facilidade com que joga basquete. Nos últimos anos, a seleção Sérvia vem sendo inconstante, mas com resultados melhores que os do Brasil. Isso começou em 2004, quando o time foi mal na Olimpíada mesmo sendo atual campeão Mundial - perdeu para a China o jogo decisivo por um ponto (67 a 66).
Em 2005, mesmo sediando o Europeu, caiu nas oitavas. Porém, como campeão do mundo, jogaram o Mundial do ano seguinte - para caírem nas oitavas novamente. Em 2007, perdeu seus três jogos no Europeu - ficou fora das Olimpíadas. Dois anos depois, porém, voltou aos bons tempos: chegou à decisão, perdendo para a Espanha.
No Mundial de 2010, a prova da recuperação: foi até as semifinais, perdendo para a Turquia e, depois, caindo para a Lituânia na disputa de 3°. Mas a bipolaridade foi para o lado negativo já o ano seguinte: após passar por duas fases de grupos do Europeu, perdeu na quarta e ficou fora de mais uma Olimpíada. No ano passado, apanhou de 90 a 60 para Espanha nas quartas do torneio continental.
Ou seja, quem estará no lado positivo desse "transtorno" nesta quinta? No lado brasileiro, vale o auge de uma geração que parecia perdida até a chegada de Rubén Magnano. No lado sérvio, a prova de que o trabalho de renovação pensando nas Olimpíadas de 2016 está no caminho certo.
O psicológico, portanto, deve ser fundamental na partida. Apagões, dificilmente, serão revertidos. Resta saber quem saberá controlar o jogo e esquecer o passado inconstante para construir uma nova história.
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